quinta-feira, 3 de abril de 2014

La (Petit) Mort

Quando a melhor parte do seu dia são os segundos à beira do precipício.

Sim, os que antecedem a queda silenciosa e ofegante dentro de uma escuridão mais e mais profunda. A vertigem de revirar a cabeça e os véus de uma pequena morte que acariciam o rosto, enfim, em paz. Cada músculo se contrai e relaxa na esperança de flutuar por mais algum milésimo de segundo na sublime sensação. Mas o baque é inevitável.

Ninguém é capaz de gozar sem motivo, mas todo e qualquer gozo é absolutamente solitário. Seja na reclusão de um banheiro trancado ou no mais obsceno bacanal. A logística de choque e sudorese é só mecânica. O suposto amor em um ato se esfarela naqueles segundos em que mais nada importa. Todos estamos sozinhos. O tempo todo, na verdade, mas sobretudo no gozo e na morte.

Freud e seu falocentrismo fazem todo o sentido quando, quem diria, o que eu mais desejo é um pinto pra estuprar todo o vazio que me faz companhia desde o momento em que eu acordo até a cama novamente.

Ciclo vicioso de me manter deitada sem barulhos nem movimentos enquanto eu tento ver pra que lado eu me jogo. Do precipício, é claro. E de novo, e de novo. E com a ponta dos dedos eu vou cavando mais o buraco na boca do meu estômago.

Mas, talvez, se eu chegar até a coluna e me transpassar, talvez ninguém note.