sábado, 21 de dezembro de 2013

6 minutos

Encarava seu rosto rechonchudo por horas no espelho. Só conseguia pensar no que poderia fazer para perder aquelas bochechas enormes. Ás vezes também se perdia no meio de um devaneio, ensaiava falas que nunca iria dizer, e de súbito, arregalava os olhos se perguntado se estava a falar todos aqueles insultos em voz alta. Pra si mesma.

Não saberia a resposta.

O tempo todo fora do controle, como se não pudesse fazer nada a respeito de coisa nenhuma. Era como se assistisse o filme de sua própria vida a fim de fazer os cortes finais. O leite estava na iminência de tocar o chão e seus dias eram como os milésimos de segundo em que a gravidade age sobre os corpos fora de equilíbrio.

Certa vez ouvira dizer que o tempo não passa de uma ilusão da mente humana. O passado e o futuro se repetiam indefinidamente, desde o Big Bang até o consumação da última molécula de energia do universo, cada fração de tempo estava em eterno looping. Entre o que aconteceu e o que está por vir flui a consciência de cada ser. Até que fazia sentido, apesar de soar como uma boa desculpa pra não mudar as coisas a qualquer custo.

Em algum lugar do futuro estava aquela pessoa que mudaria sua vida pra sempre, sufocaria, voltaria a transbordar alegria, desceria ao fundo do poço e lá se encontraria, finalmente. Sabia sempre como seriam os próximos passos. Era previsível como sempre.

Talvez esse fosse seu mal: saber demais. Ou ser convicta disso.

...

- Sabia que antes de morrer, a audição é o último sentido que se perde?

- Sério? Deve dar uma agonia pra essa gente que só sabe falar de si mesma.

- É... Deve mesmo.

- Uma vez eu li em algum lugar que quando o coração para de bater, algumas partes do cérebro continuam com as suas funções por mais seis minutos. É aí que a vida passa diante dos nossos olhos.

- (...) e se isso tudo estiver acontecendo em 6 minutos? Digo, e se a gente morreu e agora tá revivendo tudo em uma outra percepção de tempo?

Fitaram-se.

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